ASSUMIR O FIM-DO-MUNDO:
Aplicação Psicopedagógica
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FICHA TÉCNICA:Autoria: Observatório Psicopedagógico do Bairro do Fim-do-Mundo
Coordenação: João Aníbal Henriques
Equipa de Psicopedagogos:
Ana Sofia Ferreira;
Fabian Cosmin Stamate
Gabriela de Freitas Leocádio;
Tânia Filipa Rangel;
Teresa Vicente Rôlho
RESUMO INTRODUTÓRIO:Do Fim-do-Mundo à Liberdade
Não há muito tempo, as regras para a reeducação ou reabilitação das crianças ou adultos pelos técnicos de ajuda, pareciam claras e estanques, ou seja, cada profissional tinha o seu papel na sociedade e não intercomunicava com os restantes profissionais, pois cada um praticava as técnicas que tinha aprendido. Pais, Educadores, Técnicos de Ajuda e Médicos foram durante anos ou até séculos, pólos distantes de saber, conhecimento e autoritarismo.
A realidade social actual tornou-se muito mais complexa. Os valores sociais modificam-se com rapidez e a cultura dos meios audiovisuais transforma a vida quotidiana. Esta realidade, tem exigido por parte de todos os profissionais em geral e das pessoas comuns em particular, um grande esforço de compreensão, adaptação e sobretudo, uma grande dose de flexibilidade.
Assim, nasceu a Psicopedagogia e com ela, por um lado, um olhar diferente sobre cada ciência e por outro, uma (nova) área de actuação profissional que tem uma identidade e que requer uma formação de nível multidisciplinar. A identidade da Psicopedagogia, pensamos, está ou deve ser encontrada no seu próprio nome.
Na verdade, existe uma perspectiva bastante complexa de todo o campo de actuação do psicopedagogo. No entanto, faz parte do nosso percurso, descortinar as barreiras do preconceito e avançarmos - finalmente, para uma nova era na Educação!
Esta obra que iniciamos é dirigida aos, pais professores, educadores e colegas psicopedagogos e a todos aqueles que se preocupam com a educação e, pretende colocar nas suas mãos um instrumento de trabalho.
Agradar-nos-ia imenso, que estas páginas reforçassem a vossa convicção de quão é fundamental ser-se realmente - um Psicopedagogo!Foi em Setembro de 1998, que a nossa visão sobre todos os valores morais, a dignidade humana e a própria condição de Ser, se uniram em algumas vozes, em algumas pessoas, mas numa só força. Decidimos então, criar um projecto, com a população do Bairro da Liberdade no Estoril.
Pensámos desde o início, acreditando no saber-fazer psicopedagógico, que a nossa actuação neste bairro, iria ser uma tentativa de colmatarmos grandes deficiências e carências, vivenciadas por uma população marginalizada e estereotipada, num local tão próximo em termos geográficos, mas tão longe em termos humanos, neste final de século.
Assim, "Assumir o Fim-do-Mundo" é o nome do segundo projecto psicopedagógico a ser desenvolvido em Portugal. É algo ambicioso, que foi criado e desenvolvido de raiz, por uma equipa de seis psicopedagogos da Universidade Moderna, com o apoio institucional da Irmã Augusta e com a ajuda, para o estabelecimento de contactos dentro e fora do bairro, da Irmã Elvira, ambas pertencentes à Ordem Salesiana.
Os três principais campos de acção, que estruturam o trabalho desenvolvido no Bairro Fim-do-Mundo, são no âmbito escolar, profissional e social.
A primeira fase foi composta por um levantamento exaustivo da população, em cada uma das três áreas referidas anteriormente. Nas áreas escolar e profissional, nomeadamente, foi travado um contacto com cada elemento do bairro, das povoações circundantes e com as instituições que se relacionam, directa ou indirectamente, com este bairro em particular.
Paralelamente, observámos, analisámos e por fim contextualizámos, através de um pré-diagnóstico psicopedagógico todas as informações recolhidas, que por ser dinâmico e passível de alteração, obteve esta designação. A população-alvo desta área escolar, é constituída por trinta crianças de idades compreendidas entre os 6 e os 16 anos, que frequentam as aulas extra-curriculares, orientadas pela Irmã Augusta, todos os dias úteis da semana, após o horário escolar.
Em termos gerais, o nosso objectivo centra-se numa integração dinâmica, visando a motivação, a eficácia, a competência, a valorização pessoal e o empenho, objectivos estes, que são abordados psicopedagogicamente.
Se existe alguma diferença neste projecto, comparativamente a outros de âmbito escolar/institucional, será certamente o facto, deste não pretender transmitir nem dar capacidades ou valores, mas sim, desenvolver ferramentas nos indivíduos, de forma a que se tornem auto-suficientes, competentes e que sejam capazes de construir o seu próprio Projecto-Vida.
O conteúdo dos trabalhos apresentados nesta obra, é composto por cinco capítulos que se completam e que fazem deste todo, uma união muito maior do que a soma das suas partes.
No primeiro capítulo, será feita uma abordagem à Psicopedagogia, onde se tenta de alguma forma elucidar o leitor, sobre alguns conceitos básicos desta área, nomeadamente a relação entre os nossos limites educacionais portugueses e uma intervenção psicopedagógica, que tem e deve ser sempre efectuada, segundo os contornos de cada sociedade, de cada cultura e, sobretudo de cada pessoa. Assim, "a intencionalidade psicopedagógica varia de pessoa para pessoa, de caso para caso".(1)
Em relação ao segundo capítulo, falaremos de um enquadramento geográfico e de acessibilidades. A tónica predominante vai assentar numa contextualização, abrangendo toda a realidade circundante ao Bairro e que é, assim, matéria de análise estatística para uma consulta sistemática, que nos garanta um olhar multidisciplinar, com diversos encadeamentos que formam um macro-sistema.
Como tal, iniciamos este trabalho com uma pesquisa que consistiu na recolha da informação, na qual contámos com a ajuda de outros psicopedagogos, para a realização de inquéritos, as quais pretendiam abordar as seguintes áreas, como: arquitectura, nível sócio-económico, caracterização etária e socio-demográfica da população, tendo em conta os graus escolares e não escolares da (pré-escolar, escolar, laboral e pós-laboral), condições de habitabilidade, níveis de acesso, assistência médica, apoios institucionais e saúde.
Com o terceiro capítulo pretendemos referenciar uma premissa que nos diz que não devemos deixar que as adversidades das pessoas nos impeçam de encontrar as suas potencialidades.
Por este forte motivo, dedicámos parte deste texto, ao impacto que o nível sociocultural poderá ter ou não nas aprendizagens.
Serão levantadas algumas hipóteses, relacionadas com os factores que eventualmente influenciem o (in)sucesso escolar, tais como: o desfavorecimento sociocultural, a congruência educativa, a família e a escola como instituição e numa última análise, todo o ambiente que rodeia o indivíduo.
Baseámo-nos assim, numa educação que respeita os ritmos bio-psico-sociais de cada pessoa, onde o desenvolvimento adequado de todas estas estruturas (familiar, escolar e grupal) exige estimulação própria do técnico de ajuda no momento preciso, sob pena de se comprometerem determinadas funções e capacidades, que não tiveram oportunidade de se exercitar convenientemente.
No que diz respeito ao quarto capítulo, vamos apresentar todas as estratégias e técnicas utilizadas, devidamente fundamentadas, criadas e pensadas a partir de uma primeira abordagem a esta população-alvo, pois contêm características específicas que se adequam a estas práticas, para que deste modo, fosse possível perspectivar uma intervenção, com uma dinâmica psicopedagógica, a partir do pré-diagnóstico.
Nesta perspectiva, tentámos evitar qualquer lacuna de informação e, para isso, foram desenvolvidas três abordagens distintas, que marcaram todo o percurso individual de cada criança, sendo elas: observação junto do indivíduo, questionário aos pais e questionário aos professores.
A observação junto do indivíduo comportou estratégias de diagnóstico, suportadas por: técnicas intelectuais/criativas, técnicas projectivas, anamnese e técnicas de desempenho sensório-motor.
O questionário dirigido aos pais, foi a segunda abordagem executada, pois apesar de todas as dificuldades de acesso, comunicação e por vezes falta de aceitação por parte dos mesmos, pensámos ser fundamental ter este feedback junto do contexto familiar, que tanto influencia construtiva ou destrutivamente, a reeducação das crianças.
Temos consciência que a nossa actuação psicopedagógica, tem de abranger esta componente, pois quase nada poderá ser feito, se não existir uma forte colaboração que coincida na mesma direcção e objectivos.
Numa mesma perspectiva, concluímos a abordagem sistémica do indivíduo, com a realização de outro questionário direccionado para os professores, o qual continha outro objectivo e outra interpretação.
Este questionário escolar, ocorreu com o respectivo professor, para que nos transmitisse a sua visão sobre a conduta das crianças numa sala de aula, o relacionamento entre elas e destas com o professor, e o desempenho nas diferentes disciplinas. Quisemos conhecer os valores e normas da escola, em termos pedagógicos e disciplinares, numa tentativa de conseguirmos analisar, se existe ou não uma reacção da criança à situação escolar específica ou se a problemática é mais pessoal e/ou familiar.
Quanto ao quinto e último capítulo, consideramos ser aquele que, de uma forma muito específica e concreta, poderá fornecer todos os dados e elementos conclusivos (nunca esquecendo o carácter dinâmico e actualizado, que um trabalho deste tipo comporta), desta nossa primeira abordagem como psicopedagogos. Sendo assim, iremos referir os défices encontrados, mas somente como uma atitude de enquadramento global pois, aquilo que é alvo de uma intervenção psicopedagógica, são as potencialidades de cada indivíduo, para que, deste modo, desenvolvamos instrumentos capazes de reduzir os défices da criança e melhorar as suas aptidões, fazendo-a sentir - que é capaz!
Deste modo, da reunião dos cinco capítulos, esperemos que surja uma optimização efectiva da prática psicopedagógica, onde se isso for perceptível, a designaremos por equilíbrio colectivo, baseado num trabalho conjunto, realizado com dedicação, empenho e também com muito amor por toda esta actuação psicopedagógica, que desejamos que se torne num instrumento de trabalho tão sólido, quanto a nossa vontade de fazer valer a Psicopedagogia.CONCLUSÃO PROVISÓRIA:
O diagnóstico, a contextualização e a intervenção, são procedimentos básicos da acção psicopedagógica, que completam qualquer planificação deste âmbito, em termos específicos, no tratamento de problemas de aprendizagem e em termos latos, no enquadramento urbano/paisagístico.
Neste texto, procurámos clarificar o campo de acção do psicopedagogo, sistematizando ideias, expondo técnicas e revelando resultados.
Ressaltamos ainda nos capítulos anteriores, que toda a prática consistente e coerente com uma abordagem psicopedagógica solicita, não apenas um bom manejo de técnicas de intervenção, mas fundamentalmente um bom manejo dos afectos. Sabemos que, em qualquer contacto diádico no geral e entre o psicopedagogo e o indivíduo em particular, surge sempre daí, uma inevitável relação, que pode e deve conter uma forte empatia, que permita o pleno desenvolvimento de qualquer intervenção.
Assim, toda a nossa prática observou a importância do afectivo, com todos os seus desdobramentos, no processo de aprendizagem, conseguindo deste modo, focar a nossa atenção, como profissionais de ajuda, no bem estar do sujeito.
Como ficou estatisticamente comprovado, a vida profissional, escolar, social e familiar, são profundamente afectadas, pelas características sui generis deste bairro.
Deste modo, através das técnicas psicopedagógicas aqui apresentadas, pretendemos ajudar as crianças, a desenvolverem potencialidades que consigam ultrapassar adversidades, no nível do desfavorecimento sociocultural e do enquadramento geográfico.
A partir de uma intervenção contextualizada num pré-diagnóstico, a Psicopedagogia representa um combate às dificuldades de aprendizagem e ao insucesso escolar, vividas dia-a-dia, por estas crianças.
Em todo o decorrer deste trabalho, demonstramos que a Psicopedagogia tem vindo a reivindicar a cada dia o seu território, guardando particularidades, encorpando-se, quer no sentido teórico, quer no sentido prático, tendo procurado instaurar-se na praxis de forma autónoma.
A Psicopedagogia, enfim, pretendeu ser singular, num campo plural, denominado por Fim-do-Mundo.BIBLIOGRAFIA GENÉRICA UTILIZADA:
AA.VV., Uma Intervenção Psicopedagógica nas Minas da Panasqueira, Lisboa, Universidade Moderna, 1999;
BAUTISTA, Rafael, Necessidades Educativas Especiais, Lisboa, Dinalivro, 1997;
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BONETI, Rita Figueiredo, Le Développement du Language Écrit Chez les Enfants Présentent una Déficience Intelectuelle: l'Interprétation du Prénom, Archives de Psychologie, 64, Genebra, 1996, pp.139-158;
idem, A Escola como Lugar de Integração (ou Segregação?) da Criança Portadora de Deficiência Mental, Revista Educação em Questão, Editora Universitária - UFRN, Vol. 6, nº1, Natal, 1996, pp. 112-127;
BRANDES, Donna e PHILLIPS, Howard, Manual de Jogos Educativos, Lisboa, Moraes Editores, 1977;
COSTA, Alfredo Bruto da, Exclusões Sociais, Lisboa, Edições Gradiva, 1998;
CYRULNIK, Boris, O Nascimento do Sentido, Lisboa, Epigenese e Desenvolvimento, 1991;
idem, Boris, Memória de Macaco e Palavras de Homem, Lisboa, Instituto Piaget, 1993;
GLEITMAN, Henry, Psicologia, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1993;
LEGALL, André, O Insucesso Escolar - Diagnóstico e Recuperação, Lisboa, Editorial Estampa, 1978;
MAJOR, Suzanne e WALSH, Mary Ann, Crianças com Dificuldades de Aprendizagem, São Paulo, Edições Manole, 1990;
MUÍÑO, Lucía Casal, et. alli., A Família e o Insucesso Escolar, Porto, Porto Editora, 1993;
NORONHA, Mário e NORONHA, Zélia, Apoio Psicopedagógico, Lisboa, Plátano - Edições Técnicas,1993;
SANTOS, João dos, Ensaios sobre a Educação - I : A Criança Quem É?, 2 º edição, Lisboa, Livros Horizonte, [s.d.];
SKRZYPCZAK, Jean - François, O Inato e o Adquirido, Lisboa, Instituto Piaget, 1996;
WEISS, Maria Lucia, Psicopedagogia Clínica, Porto Alegre, Artes Médicas, [s.d.];
PARA MAIS INFORMAÇÕES:AA.VV. Assumir o Fim do Mundo: Aplicação Psicopedagógica de Base Sócio-Educativa, Cadernos de Intervenção Universitária, Lisboa, Universidade Moderna, 1999.
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