A ERMIDA DE Nª SENHORA DA CONCEIÇÃO DE PORTO CÃ
ConstruÃda em 1760 a mando de 'LuÃs Mendes' e sua esposa 'Izidora P.', a Ermida de Nossa Senhora de Porto Côvo situa-se na Quinta do Pisão, na Freguesia de Alcabideche. Tendo sido construÃda com intuito vocativo, uma vez que a mando dos seus fundadores é ainda hoje possÃvel encontrar, numa cartela colocada sobre o lintel da porta, uma inscrição indicando a vontade expressa de manutenção de uma memória que seria perpectuada através das missas que decorreriam todos os domingos e dias santos, o edifÃcio em questão é mais um digno exemplar da obra reconstrutiva do património religioso cascalense após o terramoto de 1755.
Não deixa de ser curiosa a escolha de Nossa Senhora da Conceição para sua padroeira, uma vez que se trata de um edifÃcio sepulcral. O dogma da Imaculada Conceição, fixado por Bula do Papa Pio IX, em 1854, prende-se normalmente com a atribuição a espaços relacionados com o nascimento, incentivando a ideia de pureza e da pré-existência de alguém na mente de Deus. Esta ideia está presente na iconografia religiosa cristã desde o inÃcio da Idade-Média, consubstancializando-se na Virgem Pré-Existente, que foi mãe e esposa de Deus antes da criação de Eva. O capÃtulo 12 do Apocalipse, por exemplo, descreve-a como um sol raiado de sete estrelas com uma lua aos pés, sendo curiosa a analogia existente entre esta simbólica e a decoração das habitações tradicionais das zonas rurais de Cascais, onde a temática lunar se afirma como fundamental.
O significado do termo 'Ermida', implÃcito na sua localização num terreno ermo, por certo influenciou largamente a sua estrutura, uma vez que as dificuldades fÃsicas apresentadas pelo terreno, obrigaram à construção de um muro de contenção de terras que a protege e rodeia.
Os ritos de fundação de edifÃcios cristãos revestiram-se, desde os tempos primitivos, de procedimentos simbólicos em que a Cidade de Jerusalém se assumia como eixo do mundo, devendo orientar todos os locais de culto. Era normal, no mundo cristão, orientar a disposição dos jacentes em direcção a oriente, pretendendo-se assim que o defunto pudesse olhar o sol nascente no momento do JuÃzo Final. Tal, no entanto, não é o caso da Ermida de Nossa Senhora de Porto Côvo, cuja cabeceira se encontra no sentido SE-N, contrariando a disposição mais comum e, desta forma, alicerçando a hipótese de a sua construção resultar de um aproveitamento de um local já sacralizado e, possivelmente, onde se encontraria já um outro monumento de culto.
A ermida apresenta uma concepção de espaço que responde à sua funcionalidade. De pequenas dimensões, apresenta uma simplicidade de formas nos frisos e pilastras que é conjugada com outros efeitos decorativos que lhe imprimem algum dinamismo e um efeito cenográfico contido e sóbrio. Ao entrar sobressai à vista a abóboda de berço da cobertura, ainda em estado suficientemente razoável de conservação para nela se poderem vislumbrar uns restos de frescos polÃcromos, que contrastam com as cores azul e branco daquilo que resta dos azulejos do altar.
No centro da capela foram sepultados os encomendadores do edifÃcio, cobertos por uma lápide que, apesar do lastimoso estado de destruição em que se encontra, fruto de pilhagens sucessivas que se ficam a dever ao abandono em que se encontra toda a propriedade, ainda apresentam curiosos signos decorativos, provavelmente de origem iconográfica pré-clássica. São de realçar, pelo impacto que posteriormente assumem em muitos edifÃcios religiosos da zona rural de Lisboa, aqueles que se baseiam na ideologia egÃpcia, como a flor-de-lótus e a roseta. No Egipto antigo o lótus faz parte de uma das cosmogonias conhecidas. Nascido das águas primordiais, foi, por sua vez, o berço do sol. A roseta, por seu turno, é um motivo alegoricamente relacionado com o sol, simbolizando a ideia de imortalidade. Na mitologia egÃpcia Aton é representado por um disco solar, do seio do qual, através dos olhos, saÃram os primeiros homens.
Se associarmos tudo o que foi dito, podemos concluir que a Ermida de Nossa Senhora da Conceição de Porto Côvo, com toda a pujança de uma situação geograficamente estranha e de um sistema decorativo propÃcio ao estabelecimento de relações trans-cultuais, se relaciona definitivamente com alguns dos mais antigos e importantes cultos da Ibéria pré-cristã. Em termos urbanÃsticos, e se uma investigação arqueológica for levada a efeito, visÃvel se torna a possibilidade de a mesma resultar de um processo de adaptação do espaço face a cultos anteriores que ali foram desenvolvidos.
Tenhamos fé em como o conhecimento e o interesse que desperta este monumento conduza à convicção da necessidade da sua preservação...
João AnÃbal Henriques e Mónica Brito
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