PSICOPEDAGOGIA NAS MINAS DA PANASQUEIRA
Texto Publicado no Jornal "Notícias da Covilhã" em Dezembro de 1998
Tema:Interesse e Interesses nas Minas da Panasqueira
Com os meus melhores cumprimentos, e no seguimento da nota publicada no v/ jornal na edição do passado dia 27.11.1998, acerca do funcionamento do Observatório Psicopedagógico das Minas da Panasqueira, a qual põe em causa a qualidade, a motivação e a credibilidade do trabalho desenvolvido pela equipa que comigo tem trabalhado naquela instituição, venho pela presente solicitar a V.Exª. a publicação da resposta seguinte, a qual considero fundamental não só para o esclarecimento do bom nome dos profissionais que, desinteressadamente, trabalham nesse local, como, sobretudo, para o futuro dos habitantes das Minas da Panasqueira:
Em primeiro lugar, e para esclarecimento e informação dos autores da referida nota e do seu conteúdo, cumpre-me frisar que o trabalho desenvolvido pelo Observatório Psicopedagógico das Minas da Panasqueira, apresentado publicamente na Barroca Grande perante uma plateia composta maioritariamente por habitantes daquelas localidades, e que deu origem a diversos artigos na imprensa, um dos quais é o referido nessse trabalho, possui um fundamento técnico/científico. Ora, como é natural, em trabalhos científicos, não se incluem opiniões pessoais ou interpretações dos factos. O relatório que apresentámos, resultante de um trabalho exaustivamente levado a efeito com quase todos os habitantes das Minas da Panasqueira, como aliás contece com muitas outras intervenções que desenvolvemos noutras regiões do País, reporta-se exclusivamente à informação que nos foi transmitida pelos habitantes e que, num encontro daquele género, podia ser transmitida às instituições presentes. Para observar cientificamente, ao contrário do que a nota faz supor, é fundamental que exista ISENÇÃO…
Em segundo lugar, e esta é a grande diferença existente entre uma intervenção psicopedagógica e outras que conhecemos, a observação efectuada por este Observatório é alicerçada na necessidade de promover as potencialidades da região e das suas gentes, em detrimento dos problemas que, infelizmente, todos conhecemos e sabemos existir naquele lugar. Observar o que está mal é muito fácil, perspectivar potencialidades é muito mais difícil. Para observar com carácter psicopedagógico é preciso SABER…
Em terceiro lugar, e contrariando todas as actuações institucionais desenvolvidas nas Minas da Panasqueira, que se fizeram PARA aquela comunidade com as consequências que todos conhecemos, o Observatório Psicopedagógico desenvolveu a sua actuação COM as populações locais. Por este motivo, os dados preliminares apresentados nessa ocasião aos jornalistas e à população são, sobretudo, aqueles que a população nos apresentou como mais prementes, frisando desejar transmiti-los. Para traduzir psicopedagogicamente a vontade das populações é fundamental não possuir INTERESSES que a venham a constranger…
Em quarto lugar, uma intervenção psicopedagógica pressupõe a utilização de uma série de princípios técnicos que, a partir de uma dinâmica de ensino/aprendizagem, promovam uma modificação que valorize as aspectos positivos, inviabilizando os negativos, que enformam o devir quotidiano da sociedade. Por este motivo, a observação agora criticada (como aliás frisámos no decorrer da apresentação), mais não é do que a primeira parte de um trabalho de diagnosticação de potencialidades, que será, no início de 1999, complementado com uma contextualização e aprofundado, posteriormente, com a aplicação de um modelo de intervenção. Por este motivo, intervir psicopedagogicamente implica muito mais do que falar. CRITICAR é muito fácil…
Por último, e tomando como orientação a excelente recepção, acompanhamento e apoio que nos foi demonstrado pelos habitantes das Minas da Panasqueira, é importante fazer ressaltar que, a pobreza em Portugal, neste final do século XX, não se mede pela riqueza e pela opulência, mas sim pelos valores. A grande pobreza que encontrámos naquelas localidades, fruto de interesses diversos e incompatíveis com os interesses da região, não traduz a população, uma vez que essa, mais do que qualquer outra das que temos encontrada, é rica em tudo aquilo que é importante.
A garantia que aqui queremos deixar, aliás exactamente igual aquela que deixámos às populações das Minas da Panasqueira, é que jamais deixaremos de fazer eco das suas necessidades, medos e sonhos. A referência ao ‘cheiro nauseabundo’, utilizado para suportar a crítica fácil que nos é apontada, foi-nos apresentada vezes sem conta por dezenas de habitantes ao longo dos muitos contactos que efectuámos. Como referimos no contacto com a imprensa, à frente de muitos daqueles que connosco partilharam esse sentimento, o medo de morrer sozinho, sem a família por perto, sobretudo devido à emigração, faz com que muitos dos idosos das Minas da Panasqueira procurem nos lares que só existem fora da região, um refúgio que garanta que não são encontrados, vários dias após o óbito, através do ‘cheiro nauseabundo’ que anuncia a sua partida deste Mundo. Segundo estas pessoas, e com carácter cada vez mais regular, esta situação vai acontecendo e marcando o dia-a-dia dos que ali habitam. Quem nos critica, só o pode fazer com um sentido: ou nunca falou com os idosos dessas aldeias ou, pelo contrário, não está interessado em divulgar o que eles lhe disseram…
Como se sabe, a equipa psicopedagógica do Observatório das Minas da Panasqueira esteve o verão inteiro na região, partilhando com os seus habitantes a generosidade sem limites que estes lhe ofereceram. Não podemos, por tudo isso, deixar de nos insurgir contra aqueles que ousam pôr em causa a limpeza, a honestidade, a bondade e a dignidade dos habitantes das Minas da Panasqueira, coisa que nós, que com eles partilhamos a mesa, nunca fizémos. Pelo Contrário. Para nós, e novamente contrariando quase tudo o que que tem sido feito acerca daquele espaço, as Minas da Panasqueira são um local pleno de potencialidades, com uma paisagem maravilhosa, uma cultura extraordinária e uma comunidade que em tudo dignifica Portugal. O livro que está agora no prelo e nos preparamos para editar, é o primeiro, em muitos anos, dedicado inteiramente àquele espaço; sem interesses ou outras motivações que não as pedagógicas. A sua capa, ilustrativa do que acabámos de frisar, é a primeira, em vários séculos, a apresentar uma fotografia das curvas do Zêzere, ao invés de colocar, como todos fazem, a desfavorecida paisagem da exploração mineira em primeiro plano.
Não sabemos, nem queremos saber, de quem é a culpa da situação extremamente grave em que se encontra aquele espaço; o nosso objectivo é definir estratégias que permitam inverter a situação. Não deixamos, no entanto, de sentir que existem naquele lugar instituições, associações, grupos e organizações que, muito embora conheçam as situações, nada têm feito para as resolver.
As Minas da Panasqueira, compostas por um conjunto de locais com grande INTERESSE para Portugal e para os portugueses, possuem no seu seio INTERESSES que não têm deixado sair as suas gentes da situação precária em que se encontram!
Sem mais de momento, subscrevo-me
Atentamente
Dr. João Aníbal Henriques
(Director do Observatório Psicopedagógico)
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