BAIRRO DO FIM-DO-MUNDO ESTUDADO AO MILÍMETRO
Experiência Inédita em Núcleo de Barracas em São João do Estoril Combate a Exclusão e Começa pelas Crianças em Idade Escolar
Meio dúzia de psicopedagogos e computadores, um cão e um extraterrestre estão a preparar-se para mudar a realidade de uma das zonas mais degradadas da Grande Lisboa, o Bairro do Fim-do-Mundo, em São João do Estoril, após terem traçado as características da exclusão que a sofre a população ali residente. A notícia parece-lhe insólita?
No entanto é simples. Há cerca de dez meses, um grupo de estudantes e docentes do Centro de Estudos de Psicopedagogia da Universidade Moderna (UM), com o apoio de seis psicopedagogos de universidades alemãs em colaboração com a Câmara Municipal de Cascais (CMC), o Centro Pastoral Nossa Senhora de Fátima e entidades privadas abriram um Observatório Psicopedagógico junto ao bairro para iniciar um trabalho inédito em Portugal.
O objectivo do estudo, cujas conclusões estão agora disponíveis, foi, de início, conhecer a fundo a realidade do bairro, através de inquéritos à população e da interacção com as crianças ali residentes, de forma a conseguir uma intervenção eficaz contra a esxclusão, promovendo as potencialidades até então desvalorizadas do bairro e da população e dos indivíduos que o compõem.
Nesta primeira fase de um projecto que está longe de terminar, o grupo-alvo era composto por cerca de três dezenas de crianças em idade escolar, portadoras de inúmeras potencialidades raramente descortinadas, no sistema educativo corrente, como afirmam os responsáveis da equipa.
A realidade com que se depararam os universitários é esclarecedora. No Fim-do-Mundo habitam cerca de trezentas famílias, maioritariamente de origem africanas ou cigana, com graves carências. A maioria da população, jovem, vive com fracos recursos económicos.
Constituído por barracas, o bairro tem sérios problemas de tráfico e consumo de drogas, verificando-se um grande número de pessoas ali residentes há menos de um ano, provavelmente devido às recentes perturbações políticas em África, já que a maioria dos cidadãos africanos é guineense.
Este facto reveste-se de grande importância, já que a população do Fim-do-Mundo se prepara para ser realojada, a coberto do Plano Especial de Realojamento (PER), entre 2000 e 2001. Assim, sendo uma fatia significativa da população flutuante, o recenseamento da CMC não corresponde, de facto, às famílias ali existentes.
Mais: a referida população flutuante está excluída do realojamento, do sistema de saúde e, no caso das crianças, do acesso ao ensino pré-escolar.
Há uma diferença entre o bairro oficial e o bairro verdadeiro, afirmou ao JN o psicopedagogo João Aníbal Henriques, coordenador do projecto pela UM.
No Fim-do-Mundo, existe uma grande percentagem de analfabetos, sobretudo entre a população feminina, sendo o grau académico predominante o 9º ano. A actividade profissional da população masculina centra-se sobretudo em actividades como a construção civil, enquanto entre a população feminina predominam as empregadas de limpeza.
Num bairro com tais características, interessava à equipa da UM compreender os mecanismos que condicionam o insucesso escolar, de forma a reverter o processo. Nesse sentido, os universitários instalaram um conjunto de computadores no atelier detempos livres do Bairro-Novo-do-Pinhal, o conjunto de edifícios onde foi já realojada parte da população, mesmo ao lado do Fim-do-Mundo.
Aí, aplicaram-se técnicas inovadoras no nosso País: os computadores serviram de incentivo às aprendizagens, enquanto um cão fisicamente presente no ATL serviu de elemento de sociabilização dos alunos. Até um extraterrestre inventado a propósito o Eco serviu de interlocutor informático, comentando o bairro e pedindo respostas e cumprimento de tarefas às crianças.
A equipa tentou, assim, entender a origem da instabilidade visível nas 26 crianças envolvidas. O estudo conclui que as dificuldades nas aprendizagens e lacunas na inserção dos próprios pais no aparelho educativo levam à ruptura entre a escola e o meio.
Por outro lado, os investigadores detectaram muitas famílias em situação de divórcio, sobretudo porque os pais abandonam a família, emigrando para outros países em busca de melhores condições de vida, ou ainda por se encontrarem presos por tráfico de droga.
Por outro lado, a sobrecarga laboral imposta às famílias pelas dificuldades económicas deixa-lhes pouco tempo para os filhos, sendo também comum haver crianças maltratadas, por exemplo por pais embriagados.
Em suma, sublinha o estudo, não são as dificuldades económicas o único motivo do insucesso escolar destas crianças: a falta de motivação por parte dos pais, as diferenças culturais, o descurar dos cuidados pessoais de higiene e de saúde e a falta de dedicação e de empenho por parte dos professores, que, sem apoio, não conseguem lidar com a situação, são outros dos factores que acentuam o problema. Para os investigadores da UM, os défices de aprendizagem e a instabilidade das crianças podem ser combatidos com as técnicas tradicionais que são aplicadas na escola. No entanto, no caso de muitos destes alunos, tais técnicas estavam condenadas ao fracasso. Impunham-se estratégias alternativas que, fora dos contexto escolar mas influíndo nele, fossem ao encontro do seu quotidiano.
Os dez meses de vida do projecto permitiram aos técnicos despertar capacidades até então adormecidas no grupo de alunos, como a imaginação, a criatividade, a impulsividade, a concentração e a predisposição para um pensamento flexível, algumas delas potenciadas até pelo meio desfavorável em que as crianças vivem.
Para João Aníbal Henriques, é agora possível criar novas formas de intervenção junto daqueles alunos, a partir das experiências inéditas já desenvolvidas. Deste modo, em Outubro inicia-se um projecto já dirigido a todas as crianças das barracas, com atenção especial àquelas que fazem parte das famílias não-recenseadas. A equipa pretende intervir de forma indirecta junto dos estabelecimentos de ensino da zona, fornecendo aos professores algumas informações a que a escola, por si, não pode chegar, de forma a complementar deficiências do sistema educativo. A verdade é que, quando lhes é dada oportunidade, as crianças deste bairro demonstram ter um interesse e uma capacidade de trabalho superior à maior parte dos casos, afirma o responsável.
A experiência do Observatório Psicopedagógico da UM no Bairro do Fim-do-Mundo, pode ser usada noutros bairros degradados do concelho de Cascais e até no acompanhamento das situações de realojamento, declarou ao JN João Aníbal Henriques. Para já, parte da equipa da área escolar vai tornar-se ambulante.
A ideia é - já que algumas das famílias do bairro que foram realojadas foram dispersas por diferentes zonas do concelho, em vez de instaladas no Fim-do-Mundo acompanhar as crianças de forma a entender que implicações a sua saída daquele meio tam nas suas capacidades de aprendizagem e de integração. Por outro lado, pretende-se saber como reagem as populações já residentes nas zonas onde estas famílias são realojadas.
JORNAL DE NOTÍCIAS, Sábado, 7 de Agosto de 1999
AUTORIA: Sérgio Vitorino
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