MOINHOS DE VENTO DE CASCAIS
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Ó Tu que habitas em Alcabideche,
não te falte o grão nem ter escassez de cebolas,
nem de abóboras!
Se tu és homem enérgico não te falte
a nora das nuvens,
sem necessidade de mananciais!Abu Zayd ' Abd ar-Rahmãn ibn Muqana
Com estas palavras enérgicas e decididas, proferidas na longínqua viragem do último milénio, que Abu Zayd ' Abd ar-Rahmãn ibn Muqana, natural de Al-Qabdaq (Alcabideche),caracteriza a vida rural no actual concelho de Cascais. Nessa altura, segundo nos refere a Prof.Drª.Mª Jesus Rubiéra Mata tal como hoje, o digno poeta queixava-se de que, embora a sua terra fosse bastante rica, os colectores de impostos não o deixavam em paz, transformando a opulência em extrema pobreza.
Para expressar esta ideia ibn Muqana utilizou a metáfora da nora das nuvens, tornando-se assim o primeiro escritor da Península Ibérica a referir expressamente a existência de moinhos de vento nestas paragens.
No âmbito do levantamento exaustivo do património Cascalense, que a Fundação Cascais tem vindo a desenvolver, através da sua secção de Património Cultural, procurámos saber em que estado é que estão os moinhos de vento do nosso Concelho. O objectivo desta pesquisa, que ultrapassa largamente a mera incidência cultural, era o de perceber qual a verdadeira influência que a figura do moleiro e do próprio maquinismo do moinho de vento, exerce (ou exerceu), sobre as populações vizinhas.
Digna de nota, pela sua novidade, foi a constatação do elevado grau de poder simbólico atribuído a esta profissão, o que ter a haver, em nosso entender, com o facto de ser o moleiro responsável pela transformação dos grãos em farinha, e assim, indirectamente, se tornar num dos principais responsáveis pela fabricação do pão e, consequentemente, pela alimentação popular. O seu acesso à água, bem como o facto de o engenho destes moinhos ser bastante dispendioso, colocavam o moleiro num patamar social diferente do comum mortal, que, ainda para mais, dependia do vento que vem de Deus para levar a efeito a sua branca tarefa.O impacto que o moinho tem sobre a paisagem, bem como a característica artesanal de que se revestem todos os engenhos produzidos e fabricados por artífices especializados que dedicavam a sua vida inteira a essa tarefa, parecem ser motivos de sobra para podermos considerar os moinhos como património histórico, arquitectónico, etnográfico de elevado valor e interesse.
No concelho de Cascais, ao contrário do que vem acontecendo um pouco por todo o País, a preservação dos moinhos de vento tem sido nula, principalmente durante o decorrer destes últimos anos. De facto, em 1988, durante a construção dos acessos ao Cascaishopping, colocou-se o problema da destruição do monumento a Ibn Muqana, que ficaria definitivamente separado dos moinhos de vento que lhe dão consistência. Desde essa altura até agora, e já lá vão quase doze anos, nada mais foi dito sobre a questão e os moinhos, após mil anos de subsistência, encontram-se à beira da ruína, que se anuncia para breve.
Dos cerca de 150 moinhos assinalados na Carta Topográfica 1:25000 dos Serviços Cartográficos do Exército, de 1963, só foi possível à Fundação Cascais identificar cerca de trinta.
Desses trinta, cerca de 90% aguarda pacientemente a derrocada eminente, enquanto que 8% dos restantes se encontram enquadrados em modernas moradias. Os outros 2% representam moinhos que, embora abandonados, se encontram ainda em estado satisfatório de conservação.
Da totalidade dos moinhos estudados pela Fundação Cascais apenas 10 possuem ainda no seu interior os engenhos originais em madeira, enquanto que doze deles, possuem as rodas dentadas e o mastro principal abandonado em terrenos anexos.
Em condições de laboração, e para além de um moinho de armação tipo americano, recuperado pela edilidade com o apoio da Junta de Freguesia de Alcabideche não foi possível encontrar, até agora, qualquer moinho no concelho de Cascais.
O valor patrimonial, simbólico, etnográfico, arquitectónico e paisagístico destes moinhos, que possuem um enorme manancial de informação e de potencial didáctico, é inquestionável, razão pela qual nos insurgimos contra esta situação.
Não seria tão fácil, quer à Câmara Municipal de Cascais, quer às Juntas de Freguesia, recolher os abandonados restos dos engenhos e da rodas dentadas destes moinhos? Não seria útil para toda a comunidade, agora que Cascais se está a tornar definitivamente um dormitório de Lisboa, relembrar às populações o carácter marcadamente agrícola que o concelho já possuiu? Não seria profícuo, do ponto de vista científico, didáctico ou mesmo político, uma vez que urge encontrar soluções para travar a descaracterização do espaço concelhio, a criação de um espaço museológico vivo e dinâmico, talvez em torno de um destes moinhos, onde estivessem permanentemente expostos os resquícios deste passado tão próximo mas, ao mesmo tempo tão longínquo?Porque não aceitamos que Cascais se transforme num Concelho descaracterizado; porque nos insurgimos contra o desinteresse; porque continuamos a acreditar na nossa terra, apelamos a todos os internautas para que contribuam para o conhecimento e reconhecimento do Concelho de Cascais.
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