FUNDAÇÃO CASCAIS AJUDA FIM-DO-MUNDO



Projecto em curso no bairro tenta combater o insucesso escolar e apoiar a integração social de uma fatia esquecida da população

CORRESPONDENTE: VIRGÍLIO MACHADO

Grande parte das crianças com idades entre os 7 e os 12 anos não sabe ler. Esta é uma das conclusões do trabalho que a Fundação Cascais tem vindo a realizar junto crianças e adolescentes no problemático bairro do Fim do Mundo, na Galiza, perto de São João do Estoril.
Desenvolvido com o auxílio das novas tecnologias, o projecto pretende ajudar a combater o insucesso escolar num bairro de barracas, marcado por vicissitudes várias, entre as quais elevado índice demográfico.
Entre os dados revelados pelos técnicos envolvidos neste projecto, cujas conclusões foram agora parcialmente reveladas, destaca-se aquele que é menos aceitável nos dias de hoje: analfabetismo primário numa faixa etária em que é suposto existir escolaridade obrigatória.
Inês Mantero, uma das especialistas da equipa, explicou ao JN que a Fundação está a «tentar desenvolver as competências da população que ali habita, para mostrar que, aqueles jovens, apesar de viverem no Fim do Mundo, têm as mesmas capacidades que os outros».
No entendimento de Inês Mantero «este estudo vai identificar o que as pessoas sentem por viver ali, quais os seus objectivos de vida, e, ao mesmo tempo, valorizar a sua auto-estima».

A ajuda dos computadores
Mas as ambições da Fundação Cascais não ficam por aqui. Através do ensino computorizado, o projecto pretende, ainda, desenvolver aquilo a que chama «valores educativos», conjugando a dimensão intelectual com a afectiva e a social, consideradas «fundamentais no desenvolvimento do ser humano».
Com este método, o projecto «Assumir o Fim do Mundo» pretende que as crianças se projectem na sua dimensão social, dando-lhes possibilidade de conhecer outros modelos e os valores neles implícitos. Ou, traduzido em palavras dos protagonistas do trabalho de campo, «o recurso computacional bem utilizado pelos formadores, irá contribuir para um melhor conhecimento do Mundo por parte dos alunos, criando uma consciência de entre-ajuda e compreensão, bem como um domínio de si próprios e do que os rodeia», explica Inês Mantero.
«Este caminho vai introduzi-los no respeito pelas regras do jogo da vida, o que, sem dúvida, lhes irá permitir avançar na integração social».
Filipe Soares Franco, presidente da Fundação Cascais, tenta sintetizar em palavras este contacto com uma população que não aceita, à primeira vista, «forasteiros» no seu seio. «O que tentamos é dar a estes jovens uma formação e educação mínimas, para, assim, os procurar integrar na sociedade», relata.
«E é bom que se diga que estamos a trabalhar com crianças. que não têm qualquer tipo de assistência, e não tendo direito a ir à escola, muitas delas não possuem família, porque a mãe e o pai estão detidos», denuncia, concluindo que se está perante situações quase caóticas.
Em desenvolvimento encontra-se ainda um outro projecto, cuja meta é medir o consumo de álcool em Cascais entre crianças e jovens com idades compreendidas entre os 11 e os 18 anos.
Sobre este trabalho, o mais recente da Fundação Cascais, Filipe Franco, confessa que «ainda é cedo para haver resultados, até porque esta não é uma tarefa simples».
«Por lei, os jovens com menos de 18 anos não podem consumir álcool em estabelecimentos públicos, mas a verdade é que esse é um retrato generalizado, que provoca grandes problemas de natureza educacional e até de segurança», conta, chamando a atenção para uma realidade que muitos têm procurado escamotear.


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Edição de 17 de Janeiro de 2000 - SECÇÃO GRANDE LISBOA


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