
Setor Florestal no Brasil
3. Situação Presente
3.1. Tecnologia Florestal
3.1.1. Polarização de tendências contrastantes
Por um lado temos uma manutenção atávica de procedimentos arcaicos com surgimento dispersivo de novas e pequenas áreas de floresta plantada visando complementar o rendimento econômico de atividades agrícolas localizadas em áreas maiores de uma mesma propriedade.
Por outro lado, pode ser observado o crescimento de empresas florestais mediante incorporação, aquisição ou arrendamento de pequenas áreas florestais esparsas e distanciadas entre si ou o crescimento da área de florestas plantadas numa propriedade mediante anexação de áreas vizinhas, chegando assim a formar uma grande área ou um aglomerado contínuo de plantações florestais.
Os procedimentos arcaicos, pela dispersão em pequenas florestas, elevam os custos de transporte da madeira e tornam a sua qualidade muito variável, elevando o nível de incerteza dos fornecimentos. A atividade principalmente extrativa quando se trata de mata nativa, significa um desrespeito ao meio ambiente que conflita com a sustentabilidade da floresta. Estas empresas
florestais mostram ter sua capacidade inovadora quase fossilizada, ficando dependentes passivos da pesquisa realizada em instituições estatais caras, ineficientes e obedecendo critérios de prioridade divorciados da realidade florestal do País.
A atitude empresarial que leva a formar aglomerados de uma certa escala produtiva, leva a uma atividade planejada internamente dentro de horizontes estratégicos de longo curso. As conseqüências desta atitude são os seguintes: Custo de transporte baixo, porquanto a distância média diminui ; segurança nos fornecimentos de madeira prometidos assim como numa qualidade confiavelmente uniforme; uma preservação maior do meio ambiente, permitindo uma maior certeza na sustentabilidade. Capacidade de inovar internamente e/ou julgar a conveniência de adquirir uma inovação externa, bem desenvolvida
O nível de vida condizente com uma maior rentabilidade da tecnologia florestal considerada de ponta contrasta com o nível de vida baixo da silvicultura tradicional tanto quanto as respectivas rentabilidades.
3.1.2. Silvicultura tradicional
A biodiversidade das florestas localizadas nas áreas setentrionais do Hemisfério Norte se apresenta muito pobre, resultado de uma longa seqüência de condições climáticas severas que eliminaram as espécies carentes da flexibilidade na adaptação à severidade ambiental ou às constantes e sutis mudanças do entorno. Cumpre ressaltar que a propagação de poucas espécies sobreviventes propiciou florestas com um nível de uniformidade elevado, característica muito estimada nos processos de industrialização de produtos florestais.
O seu perfil de florestas nativas de elevada homogeneidade e com predominância de coníferas, constitui um ecossistema bem mais simples do que aqueles dominantes nas regiões intertropicais. Trata-se de um quadro ecossistêmico que propicia o desenvolvimento da silvicultura tradicional, permitindo assim uma produção sustentada de madeira utilizando as espécies nativas homogêneas disponíveis na própria região. A silvicultura tradicional tem a vantagem de uma regeneração baseada em processos naturais, não exigindo preparo intensivo do solo nem execução de cortes rasos em áreas extensas.
3.1.3. Silvicultura intensiva: fundamentos biotecnológicos
Nas áreas tropicais e subtropicais, onde predominam florestas mistas extremadamente complexas na sua composição, é ainda muito difícil aplicar a silvicultura tradicional com um retorno econômico atrativo. Para tanto, foi necessário desenvolver estudos básicos e aprimorar as observações empíricas, assim permitindo alicerçar métodos novos e mais adequados, cujo conjunto caracteriza o que passou a ser chamado de Silvicultura Intensiva.
A Silvicultura Intensiva é baseada no conhecimento das variações naturais entre espécies florestais, na procedência das sementes dentro das espécies (raças, ecotipos e clones); entre descendências no interior de populações; e, ainda, entre árvores
dentro de suas descendências. A existência da variabilidade genética, a preservação e conservação da diversidade "in-situ" e "ex-situ", o conhecimento das prováveis causas que afetam a variabilidade genética, e a sua correta manipulação, são as bases para a manutenção e o aumento da produtividade através do melhoramento genético florestal.
Na Silvicultura Intensiva, um programa de melhoramento florestal visa, mediante uma manipulação inteligente e profissional dos elementos diferenciados que compõem a variabilidade de uma floresta (nativa ou exótica), conseguir melhorar algumas das características básicas, tais como crescimento, resistência as doenças, forma, capacidade de adaptação, e facilidade de propagação, entre outras. Portanto, o objetivo do melhoramento florestal é incorporar um complexo de genes num material clonal, de tal forma que a sua expressão fenotípica represente uma melhoria em relação ao fenótipo médio da floresta em questão. Em outras palavras, o melhoramento florestal deverá "domesticar" o melhor conjunto de genes oferecido pela biodiversidade florestal disponível. Esta "domesticação" implica num trabalho de seleção preliminar seguido de verificação da validade e consistência das expressões segregadas.
É fácil concluir que todo e qualquer programa de melhoramento florestal está fadado a atingir, quando muito bem sucedido, um ponto morto a partir do qual é teoricamente impossível conseguir melhorias. Este ponto é atingido quando já se "domesticou" a melhor opção entre as recombinações alternativas que foi possível estabelecer com base ao nível de biodiversidade florestal disponível. Assim sendo, é muito conveniente preservar o nível de biodiversidade inicial para possibilitar sua expansão mediante uma incorporação seletiva de novos elementos ou complexos genéticos.
Cabe apontar aqui que as florestas setentrionais onde a silvicultura tradicional é adotada, estão hoje beirando o limite máximo de produção de madeira. Para aumentar a sua capacidade produtiva, essas florestas setentrionais estão incorporando de maneira crescente os métodos de silvicultura intensiva, inicialmente desenvolvidos para atender as necessidades de madeira nas áreas de antigas florestas tropicais.
3.1.4. A sustentabilidade ecológica da silvicultura intensiva
Entre as preocupações fundamentais que orientaram o desenvolvimento da Silvicultura Intensiva se destacou a vontade de viabilizar economicamente as atividades florestais em regiões tropicais e subtropicais. A componente ecológica das preocupações iniciais foi crescendo lentamente, até o ponto de , hoje em dia, poder afirmar que a Silvicultura Intensiva é governada principalmente por princípios ecológicos num nível igual ou maior que o da Silvicultura Tradicional.
Nesta linha de pensamento, os florestadores, além de preservar as matas nativas que circundam as florestas plantadas, procuram desenvolver nestas últimas, sub-bosques acolhedores para os perfis de avifauna que permitam manter sob controle as
populações de eventuais predadores.
O estudo dos mecanismos defensivos naturais de caráter biológico que protegem as matas nativas, e cujos benefícios se estendem aos florestamentos e reflorestamentos localizados nas vizinhanças, vem inspirando o desenvolvimento de esquemas defensivos naturais "paralelos", visando sua utilização em florestamentos industriais.
A "reconstituição" de sistemas biológicos que configuram esquemas defensivos regionais para matas nativas (às vezes quase extintas), o estudo dos intercâmbios que ocorrem nas interfaces entre matas nativas e florestas plantadas, são campos que demandam uma atenção crescente e a mobilização de uma grande variedade de conhecimentos, assim configurando um perfil multidisciplinar intenso nas equipes de pesquisadores que lideram a abertura desses novos horizontes para as atividades florestais.
3.2. Produção
3.2.1. Visão e características gerais dos principais setores produtivos.
A presente situação do setor florestal brasileiro é a de um verdadeiro caleidoscópio, porquanto ela agrega uma série de condições representativas de cada um dos estágios de desenvolvimento florestal no País, incluindo desde o extrativismo prudente e limitado, primitivamente auto-sustentável, dos povos ameríndios remanescentes, até as sofisticadas plantações
florestais visando a produção de material altamente especializado para atender especificações crescentemente exigentes demandadas pela sua industrialização. Entre estes dois extremos, podem ser observados uma infinidade de situações intermediárias que representam, pelas suas expressões diferenciadas, uns "nichos" ou "refúgios" ecológicos não menos
diferenciados entre si.
Saber encontrar nesta diversidade caleidoscópica de situações, quais são os pontos comuns, as situações conflitantes passíveis de uma harmonização que compatibilize suas respectivas contribuições induzindo convergências na construção de uma base florestal expandida e moderna para o Brasil, é um desafio para os florestais de hoje.
A situação de desafio é agravada pelo fato da tecnologia florestal de ponta estar atrelada a uma multidisciplinaridade muito rica, com características de especialização profunda de cada uma das disciplinas participantes e, ainda, pela dificuldade da especialização necessária demandar domínios técnico- científicos que a maioria das vezes foram gerados fora do Brasil, A importância destes conhecimentos demanda uma indução de vocações específicas entre a juventude universitária. Infelizmente, porem, os sistemas de ensino não são os mais favoráveis para a germinação e cultivo destas vocações que demandam visões de longo curso, em áreas de conhecimento cujo retorno sinala horizontes estratégicos muito distantes do presente.
O setor florestal é composto pelos seguintes sub-setores: Madeira Serrada, Carvão Vegetal e Energia; Chapas de madeira e Polpas celulósicas.
Na década de 60 foi lançado o Código Florestal Brasileiro, sendo criadas as primeiras Escolas de Florestas, e, simultaneamente, a Lei de Incentivos Fiscais. Estes eventos tiveram uma repercussão imediata e significativa com um aumento extraordinário das áreas plantadas no País com espécies florestais..
Inicialmente, o preparo das áreas de floresta para finalidades agropecuárias foi feita mediante simples queimadas. Elas representam a continuação de uma tradição secular nas áreas de cerrado e parece ser provável que os ameríndios usassem do fogo como meio de abrir áreas para sua pequena agricultura, bem antes da chegada da colonização de origem européia e africana. Este procedimento simples e barato apresentava o atrativo de resultados a curto prazo, porquanto a alcalinidade das cinzas resultantes neutralizava temporariamente parte da acidez dos solos de cerrado, com resultados benéficos para o empreendimento agrícola subsequente.
Uma maior demanda alimentar decorrente do aumento populacional, tornou insuficientes as áreas já destinadas à atividades agropecuárias. Esta situação originou o progressivo aproveitamento de novas áreas de floresta para atender o crescimento da demanda de alimentos..
Os primeiros reflorestamentos incentivados foram feitos com o objetivo de produzir matéria-prima para a industria de celulose e papel, e produção de energia, via carvão vegetal. Atualmente o reflorestamento cobre uma área de 4,5 milhões de ha, dos quais um terço destinado às florestas plantadas, outro terço visando a preservação e/ou conservação de ecossistemas nativos, sendo o terço restante utilizado para a infra-estrutura necessária e outras finalidades.
3.2.2. Madeira serrada, madeira compensada e chapas de fibra
a) Madeira serrada
O Brasil, possuindo o maior potencial de madeiras tropicais do mundo, participa apenas com 1% no comércio internacional devido a uma série de razões entre as quais podem ser destacadas as seguintes:
pequeno número de espécies utilizadas;
baixo volume de madeira comerciável por unidade de área;
condições precárias de produção e aproveitamento;
ausência de estrutura para uma comercialização eficiente;
falta de atendimento das especificações e exigências dos importadores.
Em 1986 existiam na região amazônica 2200 serrarias produzindo 14 milhões de m³ de madeira, consumindo 23,2 milhões de m³ de toras.
Em 1981 o mercado internacional de madeira serrada de folhosas tropicais chegou a 34 milhões de m³, dos quais 7,7 foram fornecidos pelo Brasil.
A pequena parte comercializada no exterior esta composta (>75%) principalmente de Mogno, Virola, Sucupira, Cedro, Ipê, Cerejeira, Andiroba, Louro, Angelim.
b) Madeira compensada
O compensado é usado na industria moveleira, automobilística, de construção civil, de embalagens, etc. Seu grande uso está relacionado com sua estabilidade dimensional, suas próprias dimensões, uniformidade de propriedades e resistência mecânica.
Existem dois tipos básicos de laminado: o multilaminado, que resulta da montagem de laminas de madeira dispostas perpendicularmente uma às outras (sempre em número ímpar de laminas) unidas por adesivo; e o sarrafeado, uma chapa cujo miolo é formado por sarrafos com as partes externas formadas por laminas de madeira unidas por adesivo.
A produção brasileira se situa ao redor de 25 milhões de t/ano. Embora o mercado mundial seja comprador e a qualidade brasileira boa, os principais entraves são o grande número de pequenos produtores carentes de condições técnicas e gerenciais, somado à falta de equipamentos modernos para um acabamento que atenda às exigências das especificações do
mercado internacional.
O controle de qualidade do produto brasileiro fica difícil pela dispersão decorrente do grande número de pequenas indústrias e ao fato do compensado da região amazônica se apresentar com uma densidade muito variável.
c) Chapas de fibra
De 78 até 86, a produção permaneceu em torno dos 430 mil m³ e as exportações variaram entre 162 e 204 mil m³. O Brasil é o 8 produtor e o 9 exportador mundial de compensados, sendo o 4 maior exportador de chapas de fibra.
3.2.3. Celulose e papel
As atividades produtoras deste segmento industrial estão concentradas, basicamente, no processamento de produtos florestais, assim classificados:
Pastas Químicas
A pasta química é aquela que resulta do cozimento da madeira com produtos químicos em condições adequadas visando sua deslignificação até menos de 10% de lignina. Estas pastas são empregadas na fabricação de papéis de grande durabilidade destinados a escrever ou imprimir livros e documentos.
Pastas semiquímicas
São também o resultado de cozinhar a madeira com reagentes químicos visando um nível de deslignificação menor que o das pastas químicas, sendo que a lignina residual é superior ao 10%.
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